Escrevo movido por preocupação e responsabilidade.
Muitos cristãos têm se acovardado. E esse silêncio tem custado caro.
Como teólogo e estudioso das Escrituras, sinto-me no dever de dialogar com você, cristão. Fomos chamados para ser luz do mundo e sal da terra — não massa de manobra.
Sem generalizar, é preciso dizer: muitos têm se deixado manipular. Não agem como os bereanos, que examinavam tudo à luz das Escrituras. Tornaram-se espectadores passivos, quando deveriam ser vigilantes. Têm acesso à Bíblia, à informação, à formação — mas preferem terceirizar o pensamento.
Isso é grave.
Não é difícil identificar os “vendilhões do templo”.
Quem deu autoridade a líderes que transformam púlpito em palanque?
Quem autorizou que a igreja se tornasse instrumento de projetos pessoais de poder?
A autoridade espiritual não nasce de gritos, carisma ou influência política. Nasce do compromisso com a verdade.
Quando alguém abre uma igreja com propósitos distantes do ensino bíblico e passa a promover divisões, interesses eleitorais ou alianças questionáveis, o problema não está apenas em quem lidera — está também em quem consente.
A igreja existe para glorificar a Deus e anunciar o evangelho. Seu foco é espiritual, não partidário. Misturar púlpito com palanque compromete a missão.
Por que permitir que líderes utilizem o título pastoral para disputar poder político dentro da própria instituição?
O pastor é chamado a apascentar, não a dividir.
Por que aceitar que candidatos sejam apresentados como “o escolhido da igreja”?
Desde quando a comunidade cristã precisa declarar alinhamento político institucional para cumprir sua missão?
Jesus se associou a algum partido de sua época — fariseus, saduceus, essênios? Não.
Ele manteve independência. E foi exatamente isso que preservou sua autoridade moral.
Quando a instituição toma partido em disputas eleitorais, perde autoridade para denunciar corrupção, injustiça e pecado. Fica amarrada. Fica dependente. Fica comprometida.
Uma igreja partidarizada deixa de ser profética e passa a ser conveniente.
Alguns podem distorcer este argumento:
“Mas o cristão não é cidadão? Não deve participar da política?”
Claro que deve.
O cristão é cidadão, vota, pode ser votado, deve exercer sua consciência política. A participação cívica individual é legítima.
O que se denuncia aqui é outra coisa:
o uso da instituição religiosa como instrumento eleitoral.
São coisas diferentes.
Se líderes transformam fé em instrumento de poder, e os fiéis permanecem em silêncio, há corresponsabilidade.
Cristãos com educação bíblica não seguem guias cegos.
Sabem discernir.
Sabem votar com independência.
Sabem preservar a missão da igreja.
Talvez sejam minoria. Mas existem. E precisam agir.
A mudança virá por meio de educação bíblica sólida, diálogo franco e coragem para dizer “não” quando o evangelho estiver sendo instrumentalizado.
Sou otimista quanto às mudanças.
Mas mudança exige posicionamento.
Cristãos não foram chamados para a passividade, nem para a manipulação. Foram chamados para a verdade.
Se a igreja recuperar seu foco espiritual e sua independência institucional, voltará a ter autoridade moral diante da sociedade.
Ainda é tempo.
Celso Corsino
Escritor e Cientista Social