O Brasil vive um momento decisivo em sua frágil democracia. Recordo a célebre frase de Alfred Emanuel Smith: “Os males da democracia se curam com mais democracia.”
Neste artigo, dialogo com a obra Como as Democracias Morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (Zahar, 2018). Não se trata de resumo ou resenha, mas de uma reflexão inspirada nos alertas dos autores para pensarmos a realidade brasileira.
Levitsky e Ziblatt demonstram que democracias raramente são destruídas por golpes abruptos. Elas são corroídas lentamente, muitas vezes pela própria dinâmica interna da sociedade, especialmente quando a polarização extrema substitui o debate racional.
O Brasil atravessa um nível de polarização sem precedentes recentes. Não se trata de divergência saudável de ideias, mas de um sectarismo alimentado por dois polos políticos bem estruturados — um ligado a um ex-presidente, outro ao atual presidente. Ambos exploram divisões sociais, transformando adversários em inimigos e instrumentalizando ideologias ultrapassadas para mobilizar massas.
Na obra, os autores analisam os riscos à democracia americana durante o governo de Donald Trump e citam a fábula do Cavalo, do Javali e do Caçador, de Esopo. Nela, o cavalo, tomado pelo ódio contra o javali, pede ajuda ao caçador para derrotá-lo. Para isso, aceita ser selado e dominado. Após eliminar o javali, o caçador não liberta o cavalo — ao contrário, o mantém sob seu controle. O cavalo lamenta: o incômodo que sofria era pequeno diante da perda da própria liberdade.
Essa fábula ilustra com precisão parte do comportamento do eleitorado brasileiro: na ânsia de derrotar o “inimigo”, entrega-se ao “caçador” da ocasião. E, ao final, descobre-se prisioneiro.
Em meu livro A Saga das Raposas, chamo esses personagens de “raposas da política” — especialistas na arte de manipular paixões humanas. Para a casta política, o sectarismo é funcional: transforma cidadãos em instrumentos, dificulta renovação e preserva privilégios.
Não há possibilidade de o Brasil prosperar enquanto sua população não desenvolver educação política. E essa educação não será oferecida espontaneamente pelos que dominam o sistema. Pelo contrário: quanto menos informado o eleitor, mais fácil manipulá-lo.
Cabe à sociedade buscar conhecimento como forma de autopreservação. Educação política é defesa. É compreender o funcionamento das instituições, o papel dos partidos, os limites constitucionais e o poder do voto.
Mais do que votar, é preciso entender o jogo.
Não há atalhos. A solução não está na violência, na indiferença ou na radicalização. Está na defesa e no aperfeiçoamento das instituições.
O voto precisa deixar de ser impulso e passar a ser estratégia.
Defendo que eleitores dialoguem e estabeleçam critérios claros para votar, utilizando essa ferramenta de forma coordenada contra:
o carreirismo político,
o uso familiar da máquina pública,
reeleições indefinidas,
privilégios desproporcionais.
Entre princípios possíveis:
Redução de 50% no número de parlamentares, assessores e verbas de gabinete;
Fim da reeleição para cargos do Executivo;
Limitação a uma única reeleição para cargos do Legislativo.
As propostas podem e devem ser aprimoradas, mas precisam ser simples, objetivas e focadas. Nosso voto deve carregar intenção clara.
Levitsky e Ziblatt alertam que hoje as democracias não morrem por tanques nas ruas, mas pelo enfraquecimento gradual de instituições como Judiciário, imprensa e partidos.
O Brasil apresenta sinais preocupantes:
Questionamentos estratégicos às regras do jogo;
Deslegitimação de adversários;
Naturalização da violência política;
Tentativas de restringir liberdades civis.
A isso somam-se dois instrumentos poderosos nas mãos dos dominadores:
1. A instrumentalização da religião, criando alianças emocionais e identitárias.
2. O uso estratégico das redes sociais, onde desinformação e ataques circulam com velocidade e pouca responsabilização.
Em ambientes polarizados, pequenas minorias organizadas produzem efeitos gigantescos. Trabalham direcionadas pelo “freio do caçador”.
A democracia brasileira não será salva por salvadores da pátria. Será fortalecida por cidadãos conscientes, organizados e comprometidos com as instituições.
A alternativa não é um líder forte.
A alternativa é uma sociedade forte.
Mais democracia — com mais responsabilidade, mais diálogo e mais educação política.
Essa é a única possibilidade para o Brasil.